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O dia em que o espírito do profeta Samuel apareceu para o rei Saul



A passagem bíblica de 1 Samuel 28,3-25 apresenta uma história intrigante. Trata-se do espírito do profeta Samuel aparecendo ao rei Saul numa sessão de necromancia. Os detalhes dessa história você pode conferir lendo a passagem. Aqui, eu vou focar na questão sobre quem realmente apareceu para Saul.

As pessoas que acreditam na mortalidade da alma, ou seja, que a alma não continua a viver logo após a morte, concluem imediatamente que foi um demônio que apareceu para Saul. Elas argumentam que não é possível invocar os mortos, porque eles estão inconscientes, estão dormindo, esperando o dia da ressurreição, e que portanto, quando se invoca um morto, é um demônio que aparece e se passa pela pessoa falecida. Porém, como você pode ver no artigo "O que acontece após a morte?", a alma continua sim a viver logo após a morte.

O fato é que quem apareceu para Saul não foi um demônio, mas sim o espírito do profeta falecido Samuel. Podemos ter certeza disso pelas seguintes razões:

- A própria palavra de Deus diz claramente no versículo 20 que Saul ficou muito abalado pelas "palavras de Samuel". Ou seja, o próprio texto revela que as palavras ditas eram de Samuel e não de um demônio. Aliás, o espírito foi chamado mais de uma vez de Samuel, e em nenhum momento do relato é dito que o espírito que falava era de um demônio.

- O rei Saul certamente conhecia muito bem a lei de Deus. Afinal, ele era um rei de Israel, um ungido de Deus. Se não fosse possível invocar os mortos, ele saberia muito bem disso e não iria perder tempo consultando uma necromante para tentar invocar o profeta Samuel, pois ele saberia que na verdade quem iria falar com ele não seria Samuel, mas talvez um demônio enganador. Portanto, o fato de ele ter consultado uma necromante para conseguir falar com o profeta Samuel indica que é possível sim invocar os mortos.

- O fato de em Deuteronômio 18,9-12 Deus proibir seu povo de invocar os mortos também indica que é possível sim invocar pessoas que já morreram. Afinal, seria estranho Deus proibir seu povo de fazer algo impossível.

- Até mesmo o livro de Eclesiástico, que é um livro deuterocanônico, mas considerado inspirado pela Igreja Católica, confirma que foi Samuel quem apareceu para Saul, e não um demônio, veja:

"Samuel foi amado pelo seu Senhor [...] Até depois de morrer profetizou, anunciou ao rei seu fim; do seio da terra elevou a voz, profetizando para apagar a iniquidade do povo" (Bíblia de Jerusalém; Eclesiástico 46,13.20).

Para quem rejeita totalmente a inspiração do livro de Eclesiástico, é importante notar que a Bíblia de Jerusalém, uma das bíblias de estudo mais respeitadas no mundo, afirma que alguns rabinos, até o século IV, citaram o livro de Eclesiástico, e que o Talmude conserva o seu testemunho (ver página de introdução ao livro de Eclesiástico).

- Ao ler o relato, vemos que as palavras do espírito que falava com Saul eram dignas de um profeta de Deus, eram palavras repletas de sabedoria e de reconhecimento do temor que se deve a Deus, e o principal: eram palavras verdadeiras, pois se cumpriram, conforme vemos em 1 Samuel 31. Se fosse um demônio se passando por profeta, era de se esperar que palavras mentirosas contra Deus fossem ditas, e que a profecia não se cumprisse. No entanto, algumas pessoas têm a audácia de dizer que a profecia do espírito de Samuel não se cumpriu. Elas alegam que Saul e os filhos não morreram no dia seguinte, como profetizou o espírito, mas sim vários dias depois. O que acontece é que as passagens estão fora de ordem. Segundo uma nota de rodapé da Bíblia de Jerusalém, a continuação de 1 Samuel 28,3-25 é exatamente 1 Samuel 31, que narra a morte de Saul e seus filhos. Outra nota de rodapé da Bíblia de Jerusalém explica que os capítulos 29 e 30 são continuação imediata de 1 Samuel 28,2. Portanto, Saul e os filhos realmente morreram no dia seguinte. Outros ainda alegam que nem todos os filhos de Saul morreram com ele, conforme o espírito havia predito. Ora, o espírito não disse que todos os filhos iriam morrer, mas apenas que os filhos de Saul iriam morrer com ele, sem especificar se seriam apenas alguns ou todos. Portanto, a profecia se cumpriu com perfeição.

Os que insistem em dizer que o espírito que apareceu a Saul era de um demônio, precisam urgentemente rever essa convicção, pois ela pode ser considerada uma blasfêmia contra o Espírito Santo, um pecado imperdoável, já que o espírito que apareceu a Saul era na verdade o do profeta Samuel, e os profetas sempre profetizavam através do Espírito Santo de Deus. O mesmo pecado foi cometido por certos judeus que disseram que Jesus expulsava os demônios através de Belzebu, sendo que na verdade ele os expulsava através do Espírito Santo (Mateus 12,22-29; Marcos 3,22-27; Lucas 11,14-22).

É importante ressaltar que acreditar em vida após a morte não é de maneira nenhuma estar de acordo com a doutrina espírita, mas é apenas ter uma visão semelhante (mas não igual) aos espíritas sobre vida após a morte. De qualquer forma, o pecado da doutrina espírita não é acreditar que as pessoas continuam vivendo como espíritos após a morte, mas sim acreditar que Deus não vê problema algum na comunicação com espíritos em geral. Nisso eles estão muito enganados, pois Deus condena severamente o contato com pessoas mortas ou outros espíritos, conforme Deuteronômio 18,9-12.

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